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sábado, 12 de maio de 2012


OS DIÁRIOS DO ALMIRANTE
A história vista pelos diários de bordo.

Relendo os Diários de Bordo do Capitão e depois Almirante Graham Eden Hamond* escritos nos longínquos anos de 1825 e 1838, revi umas passagens interessantes em que o oficial inglês escreve sobre o Brasil e seu povo.  Na primeira parte do diário (1825), Hamond ainda era capitão e foi responsável por trazer a comitiva encarregada do reconhecimento da independência do Brasil. A maior parte do diário se refere aos encontros protocolares e alguns aspectos técnicos de navegação, mas como era do seu estilo fazer comentários sarcásticos sobre pessoas e costumes, não resisti e anotei alguns deles, muitos não são politicamente corretos para um oficial estrangeiro em viagem de representação, mas que representavam a visão eurocêntrica e elitista de uma potência imperial européia.
Era agosto de 1825 e ele avista uma carruagem puxada por quatro cavalos que era dirigida por nada menos que o nosso jovem e fogoso imperador, informalmente vestido, que dá a volta e retorna para cumprimentar os ingleses, mesmo sem falar uma palavra na língua de Shakespeare.  Estávamos construindo a nossa informalidade, nosso jeito de quebrar regras e padrões formais de comportamento. Dias depois Hamond comenta em seu diário que vê a imperatriz Leopoldina montada em um cavalo como um homem (na época as mulheres da elite montavam de lado nas selas dos cavalos) e ela também estava acompanhada por um negro branco e um padre preto. O que ele quis dizer com negro branco? Provavelmente um escravo mestiço, com a pele branca. O padre preto também era algo surpreendente para a época, pois era raro um negro ter acesso a um seminário.
Naquele tempo os franceses estavam em alta no Brasil depois de um acordo em que 600 jovens brasileiros foram convidados a estudar na França com as despesas pagas. Enquanto no Rio de Janeiro habitavam mais de 3000 franceses, apenas 600 ingleses eram moradores na cidade, apesar da grande influência econômica dos britânicos no país.  A Rua do Ouvidor, que existe até hoje, era praticamente uma rua de franceses, com muitos modistas. Era o prenúncio da invasão dos “Pierre Cardin, Yves Saint Laurent, Louis Vuitton” etc. Essa preferência pelos franceses surpreendeu o inglês, pois em suas visitas a Portugal, observara que a influência inglesa era notória entre os lusitanos.
E o palácio do imperador? O nosso almirante o descreve como um edifício feio, amarelo e na época estavam a fazer nele alguns puxadinhos, pois era pequeno demais para abrigar a corte. E a cidade maravilhosa? Hamond narra um dia de chuva, em pleno 1825 e diz, maldosamente, que é a cidade mais imunda que já viu em sua vida e até os escravos estavam cobertos de lama. Em dias de chuva parece que o Rio gosta ainda de reviver os velhos tempos.  Mais adiante ele comenta que não pode achar a cidade saudável por causa dos abomináveis pântanos que tem em redor. No mesmo dia, o oficial britânico manifesta dúvidas se Portugal vai mesmo reconhecer a independência do país de forma tranqüila ou vai manter uma soberania nominal sobre a antiga colônia. Estava errado, apesar de que o Brasil foi obrigado a pagar uma pesada indenização ao império português, que apesar dos trezentos anos de exploração das riquezas da terra ainda exigiu os “lucros cessantes”.
No dia 15 de dezembro de 1834 havia chegado ao porto um brigue com 500 escravos a bordo que fora detido por um capitão inglês. Havia nele 521 escravos, mas 21 morreram pelas péssimas condições a bordo. Hamond prevê a morte de 1 a 2 escravos por dia. Dias depois ele comenta que 200 dos melhores escravos foram roubados durante a noite. Com este episódio ele manifesta descrença de que o governo queria realmente abolir o tráfico, pois o tratado era bastante antipático para os brasileiros. O pior é que um juiz brasileiro acusava os ingleses pelo roubo dos escravos. Hamond qualifica os ministros brasileiros como salafrários. Posteriormente ele relata que o Ministro das Relações Exteriores, um tal de Aureliano foi acusado como responsável pelo roubo dos escravos.
Ele relata em 10 de fevereiro que houve, na Bahia, um levante de escravos que resultou na morte de 60 deles durante a violenta repressão do governo local. Vê-se pelo relato que a situação não era muito pacífica no império com relação à ordem escravocrata.
Outro fato interessante relatado pelo oficial inglês é o seu encontro com o imperador, em que ele descreve que “É um menino de 10 anos com uma aparência agradável. Estava vestido de uniforme azul e ouro, calças brancas e amarrado a uma espada enorme”.   Neste episódio, relativo à comemoração do aniversário da constituição, estavam presentes vários oficiais e ao descrever um deles, o britânico assim se expressa: “Um mulato oficial do exército, tinha o aspecto de um imenso babuíno e, realmente, só lhe faltava o rabo”.  Observa-se pela descrição que dependendo da posição social e econômica, não havia dificuldade de acesso dos mestiços aos altos escalões militares e nem mesmo na corte. O que é bastante desagradável é a forma racista com que o inglês se referia as pessoas de origem africana.
Outro fato curioso são os comentários que faz sobre as mulheres, principalmente com relação aos dentes. Numa ocasião descreve uma mulher brasileira pertencente à elite que não tinha um único dente na boca. Num baile Hamond comenta sobre a dança na moda no Rio de Janeiro, a quadrilha e elogia os músicos, na maioria mulatos.
No dia 24 de junho, dia de São João, relata que houve uma grande festa, mostrando que a comemoração, que hoje tem importância maior no nordeste do que nas outras regiões do país, era uma festa bastante concorrida na capital do império.
Em 31 de julho o seu navio está atracado em Recife, onde ele observa que os escravos negros de lá são bastante diferentes dos existentes no Rio de Janeiro, notando que são provavelmente originários de apenas uma região da África.  Como de costume, ele faz observações racistas ao dizer que alguns teriam belas faces se não fossem negros.
Sua pena crítica não perdoava o governo brasileiro da época ao mencionar que os recursos seriam prodigiosos se as receitas fossem aplicadas corretamente. “Mas o peculato, nos vários departamentos, vai além de qualquer observação possível” (pg.89). Infelizmente isso mostra que nossa vocação para o patrimonialismo tem raízes antigas. Numa outra passagem, comenta sobre a captura de mais um navio negreiro, que apesar da proibição, o tráfico continua no país. Com desalento ele revela que de pouco adiantara a captura, pois em pouco tempo os escravos estariam trabalhando nas fazendas apesar de estarem sob a custódia do governo.
A propalada fama de que as mulheres brasileiras são muito bonitas não encontrava em Hamond uma opinião muito favorável, pois escreve em seu diário que havia poucas mulheres realmente bonitas no Brasil. Cita ainda a opinião de um francês, que havia estado em vários lugares no mundo, que dizia que nunca havia visto, numa reunião, tão grande número de mulheres feias como no Rio de Janeiro.
Os diários do Almirante, apesar dos seus comentários preconceituosos e reveladores de um distanciamento muito grande da realidade brasileira por parte de um oficial elitista e preconceituoso, são interessantes para se captar nuances do cotidiano do Brasil há quase duzentos anos. Um país recentemente independente que manteve intactas as estruturas coloniais após se libertar do jugo da metrópole portuguesa

  • HAMOND, G. E.  “Os diários do Almirante Grahan Eden Hamond 1825 -1838”. Tradução de Geyer, Paulo Fontainha, Rio de Janeiro: Editora JB, 1984.


VIDA DE BOIADEIRO

Meu amigo Álvaro Pequeno, por contradição um grande sujeito, no tamanho e na generosidade, defendeu uma tese um tanto atípica nos meios acadêmicos sobre os peões de boiadeiro em sua trajetória desde os tempos heróicos dos tropeiros. Os atuais peões de boiadeiro usam roupas de grife americanas, com botas que chegam a custar até dois mil dólares. As festas que são realizadas em Barretos chegam a reunir mais público dos que os grandes clássicos de futebol. Os peões colocam suas vidas em jogo por alguns segundos de fama em cima de um boi selvagem. Quando conseguem vencer a disputa e sobrevivem no lombo do boi, podem ganhar uma pequena fortuna. Quando não, podem sobrar umas costelas, pernas  quebradas ou até uma paralisia.  Os pobres peões são parte do espetáculo, mas dormem embaixo dos caminhões enquanto aguardam sua vez de entrar na arena e quando são acidentados são abandonados pelos organizadores.
Quando soube da sua pesquisa lhe ofereci umas fotografias que eu tinha guardadas em casa do meu tio boiadeiro, que labutou pelo interior de São Paulo e Mato Grosso, transportando boiada. José Ladeia Lobo, estava com apenas dezessete anos quando abandonou a escola e a família para viajar junto com uma comitiva. Sua primeira função numa viagem para o Estado de Mato Grosso foi como ajudante do cozinheiro. Aos poucos foi pegando jeito e logo já estava tocando a boiada junto com os demais vaqueiros. A vida de boiadeiro ou tocador de boiada era muito difícil, conforme contam os cronistas e as modas de viola. Dormir ao relento em cima do baixeiro era rotina dessa vida nômade levando e trazendo boiadas pelos sertões. Mas para José era uma aventura sem fim, sentia prazer com esse trabalho que lhe dava algumas satisfações e sucesso com as mulheres. Pelo nosso interior adentro ser namorada de boiadeiro era a possibilidade de estar com um homem que conhecia o mundo, uma pessoa viajada, experiente. Além disso, a espera era sempre compensada com presentes vindos de longe.  José aprendeu a tocar viola com o pai, que lhe ensinava algumas modas. Com isso ele divertia a peonada cantando músicas como Viagem Cuiabana que enaltecia a vida de peão de boiadeiro.
Tempos depois já era o chefe de comitiva, cabendo-lhe a responsabilidade pela entrega do gado e recebimento dos pagamentos. Pagava os peões que torravam o pouco que ganhavam nos cabarés das cidades onde deixavam o gado. Lá sempre eram envolvidos por mulheres sedutoras, que prometiam fidelidade eterna com uma mão no coração e outra no bolso do peão.
Boiadeiro não podia casar e quando isso acontecia era inevitável a separação, pois a vida errante não permitia uma vida sedentária. As longas viagens minavam qualquer relacionamento. Foi o que aconteceu com meu tio. Casou-se com uma boa moça do interior, filha de um fazendeiro e com ela teve cinco filhos. Casado, as viagens diminuíram, mas a paixão pelas comitivas falou mais forte e o casamento acabou.
Logo se envolveu com uma professora de Araçatuba, chamada Norma. Era bonita e elegante e estava feliz por ter ao lado  um boiadeiro quase famoso e muito respeitado na cidade. O casal era feliz e viviam aos beijos e abraços até que um dia o jovem boiadeiro, domador de burro bravo e que se gabava por subir em qualquer lombo de boi, teve uma queda fatal. Ficou desacordado e ainda chegou com vida para despedir-se da mulher amada. Morreu com 30 anos com a cabeça ainda cheia de sonhos e paixões.
Ele gabava-se por sair de Araçatuba antes de nascer o sol e chegava à casa dos pais, em Lavínia, antes do sol se pôr. Eram mais de 60 quilômetros a galope no lombo do fiel burro furioso que deixava poeira para fora pelas estradas boiadeiras que cortavam a noroeste paulista. O furioso vinha todo incrementado, com peitoral de argolinha feito sob encomenda pelo Sebastiãozinho traçador.
E o Álvaro Pequeno fez uma pequena homenagem aos boiadeiros brasileiros que labutavam a região sudeste, descrevendo as suas aventuras e desventuras desde o século XIX até Barretos, cidade dos peões de boiadeiro. Ele foi além da tese, bem escrita, com pesquisas teóricas  e empíricas e trouxe para a Universidade um grupo típico de boiadeiros com toda a sua parafernália, incluindo cozinheiro, comida típica como paçoca e arroz de carreteiro. Para encerrar, belas e inesquecíveis modas de viola. José, observava atento a movimentação ao lado do seu cavalo furioso, mas era apenas uma fotografia ampliada em forma de painel que o amigo Álvaro mandou preparar como símbolo de um tempo.

VIZINHOS

Não conheço meus vizinhos. Não sei o que eles fazem, o que pensam, em quem votam ou do que não gostam. Alguns são silenciosos, outros são barulhentos, mas é somente isso que posso lembrar sobre eles. Quando era criança sabia a vida de todos os habitantes das redondezas. Meu bairro era uma pequena aldeia e todos estavam conectados. Hoje estamos todos conectados globalmente e perdemos o contato pessoal com as pessoas próximas.
Pensando nisso, resolvi revisitar a mesma rua onde morei até os vinte e sete anos.  Era uma rua com pouco movimento e lá podíamos brincar de taco o dia inteiro sem o risco de passar um carro em velocidade. O taco era um tipo de basebol adaptado às circunstâncias e recursos disponíveis. Fui abrindo o livro da memória e resgatando os velhos tempos.  Naquela rua jogávamos também futebol com bolas de borracha, de couro ou feitas com meias. Trânsito só tinha mesmo nas ruas laterais, por onde transitavam os ônibus circulares. Algumas vezes os vizinhos reclamavam, principalmente quando uma bola caia nos quintais, quebrando plantas ou vidraças. A coisa ficava feia e num piscar de olhos a turma toda desaparecia. A rua ficava um deserto e somente no dia seguinte o pessoal aparecia e muito desconfiado.  Era difícil saber quem foi e por isso acabava ficando por isso mesmo. Mas para os vizinhos, os meninos mais pobres eram sempre os culpados. Como sempre, o preconceito de classe social fazia as suas vítimas.
Algumas calçadas ainda eram de terra e nelas fazíamos as biroscas ou buraquinhos para jogar bolinhas de vidro. Era uma alegria só. Os “patos”, jogadores muito ruins, perdiam todas as bolinhas compradas no armazém do seu Antônio. As brincadeiras tinham a sua época própria, obedecendo a uma sazonalidade que parecia programada. Eram épocas dos piões, das bolinhas de vidro, das pipas, da unha na mula e outras tantas. Quando começava o verão e começava a escurecer o divertimento era pegar vagalumes e coloca-los em vidros. Era um luxo só ter um abajur de vagalumes.
Cada um dos nossos vizinhos tinha uma história diferente. Era uma rua quase internacional. Dona Maria, uma senhora polonesa, que todos chamavam de Maria Hungareza, era prima do papa João Paulo II conforme se descobriu tempos depois, e tinha o mesmo sobrenome, Woytila.  A Dona Ana, uma alemã, tinha uma filha bonitona, que era professora no grupo escolar, chamada Rasma. Tinha mais dois filhos, um deles o pobre Frederico, que tinha retardamento mental. Todos os meninos cresceram e foram ficando rapazinhos enquanto o Frederico só ficou grande, mas com a cabeça de uma criança. Corria entre as crianças menores para apanhar balões, disputando a tapas a primazia de apagar a tocha.  Ele sempre pegava os balões, pois tinha quase dois metros de altura.
Quase em frente de nossa casa morava o seu Affonso que trabalhava nas indústrias Matarazzo e nas horas vagas cortava o cabelo da criançada por um preço bem mais baixo do que nas barbearias do bairro. Enquanto cortava minhas madeixas gostava de conversar, principalmente pelo fato de que eu já estava no ginásio e por isso achava que eu já devia ter opiniões sobre tudo. Seu pai era um velhinho italiano, baixinho e roliço que adorava uma caninha. Saia de casa todos os dias e andava uns dois quarteirões para tomar uma branquinha. Voltava tropeçando na sombra. Seu Antônio era muito simpático e brincalhão com as crianças e todos nós o adotamos como o nono. Isso com direito a pedir-lhe a benção que ele adorava. Gostava de fazer charadas com as crianças como uma em que fazia uma afirmação sem vírgulas que mudava o sentido da frase: “Matar o rei não é pecado ou Matar o rei, não, é pecado”. Hoje eu me lembro muito bem que ele repetia sempre a mesma coisa e nós achávamos sempre graça. Uma vez ele me flagrou fazendo xixi atrás do muro de sua casa. Fiquei assustado, mas ele foi muito gentil e disse que fazia mal parar. “Pode continuar sossegado”, aconselhou no seu sotaque italiano. Numa outra vez um menino me chamou de f.d.p. e ele ouviu indignado. “Na Itália, chamar a mãe de alguém assim, dá cadeia”. Pode ser que era no seu tempo, final do século XIX, mas hoje os italianos...
Seu Antonio, o vizinho do lado, era um homem enorme que andava sempre de terno preto e muito quieto. Sua mulher, dona Iracema era uma mulher de pouco humor. Eles não tiveram filhos e por isso a pouca tolerância com crianças. Vieram de Osasco, na época uma pequena cidade no oeste da capital. Em seu quintal havia pessegueiros, ameixeira, amoreiras etc. que eram a delícia dos pássaros e da molecada. De vez em quando corríamos o sério risco de levar uma lambada entrando furtivamente em seu quintal para surrupiar umas ameixas amarelinhas. Tempos depois descobrimos que a Da. Iracema não era tão ruim como inicialmente pensava. Ela fazia um nhoque imbatível.
Outro vizinho chegado às caninhas era o seu Osvaldo, um santista que o meu irmão gostava de imitar e o fazia tão bem que confundia até os seus filhos. Uma vez, quando comprei o meu primeiro fusquinha, ele resolveu que precisava me ensinar algumas dicas para ser um bom motorista e acabou dando uma ralada em meu primeiro carrinho. Ele prometeu pagar o conserto, mas como quem tomava conta do dinheiro era sua mulher, fiquei a ver navios.
Na esquina morava uma família enorme, também de origem italiana. Eram quatro ou cinco filhas e dois filhos, com os quais travamos violentas brigas de pedras e lá se iam vidraças. As ruas não eram calçadas e a prefeitura para evitar atolamentos de veículos, colocava resíduos de siderúrgicas, que deixavam pedras pesadas e ponte agudas, um perigo quando acertava a cabeça de alguém. Aliás, a minha ainda conserva marcas de petardos atirados por algum desafeto.
Dona Frida, uma russa, professava o espiritismo e convidava os vizinhos para participaram da mesa branca. Minha mãe sempre ia, pois apesar de católica, gostava de transitar pela Umbanda e o Kardexismo. Uma vez fui com ela, pois estava com uns problemas de saúde e ela resolveu tentar a sorte antes de levar-me ao médico. Com meus doze anos, achei estranha cerimônia, bastante diferente dos rituais da igreja Católica. Havia um copo com água sobre a mesa com toalha branca e algumas velas acesas. A luz era apagada para criar um clima de paz para que os espíritos se comunicassem. Confesso que não vi nem senti nada. De repente, no meio do ritual, a Dona Amélia, que tinha um leve sotaque russo, começou a falar português com sotaque nordestino, depois mudou para um sotaque alemão. Minha mãe me explicou que ela era um cavalo que estava recebendo o espírito de alguém estrangeiro. Ora, pensei com meus botões: Por que não fala na língua de origem e não em português. Fiz a pergunta para minha mãe e ela mandou que eu calasse a boca, pois não entendia nada.
Nossos vizinhos dos fundos tinham filhos da mesma idade que a gente e por isso éramos mais próximos. Estávamos sempre brincando e íamos muito a casa deles. Uma vez eu e meu irmão mais novo dormimos lá, pois minha mãe estava internada por causa de uma cirurgia. Foi muito divertido e o pai deles seu Pepe, um mecânico, ensinou vários truques para mim. Vimos televisão até tarde da noite, coisa que nunca acontecia em casa, pois meu pai além de dormir cedo, pensava que se a televisão ficasse ligada por muito tempo daria problemas e despesas com o técnico. O filho mais velho deles, o Paulinho Cabeção, era assim chamado por ter a cabeça um pouco grande, mas era um bonachão e apesar de mais velho tinha comportamento de garotos de menos idade. Ele se divertia rodando um pneu de carro pelas ruas. Não conseguiu terminar a escola primária e teve dificuldades para trabalhar. Encontrei com ele na casa dos meus pais em 1995, quando meu pai estava se recuperando de uma pneumonia. Paulinho já era um senhor de cabelos muito brancos, bastante envelhecido para idade. Neste mesmo dia meu pai teve um enfarto e só saiu do hospital para a última viagem.
Outra vizinha, dona Itália, foi vítima de uma grande tragédia. Seu filho de 18 anos morreu afogado em uma represa em São Bernardo. Foi muito triste, pois era apenas um garoto. Ele saiu com uma turma para nadar e aconteceu o trágico acidente. Logo depois o seu marido morreu com câncer, que em casa se chamava doença ruim, ou aquela doença que ninguém gostava de falar o nome. Fui com meu pai visitá-lo uma vez. Era um senhor alegre e simpático que mesmo acamado sem poder andar, ainda fumava e dizia besteiras. Dona Itália, sua mulher chorou muito no velório. Gritava desesperada que os dois únicos homens de sua vida tinham partido. Ficou ela e a filha Marizilda, uma garota levada da breca, que era a valentona do bairro e batia até nos marmanjos. Como a mãe trabalhava fora, ela abria a casa e servia pão com manteiga e café com leite para toda a molecada. Ser amigo dela era uma proteção. Um dia ela resolveu ir para a nossa casa com toda a sua turma. Minha irmã mais velha acabou deixando, mas constrangida porque nossa mãe não gostava de crianças em nossa casa. No dia seguinte teve muitas palmadas e puxões de orelha, além das terríveis broncas. Ela só não contou para meu pai com medo de que ele ficasse muito furioso.  Mas a Dona Itália, tempos depois teve um caso com um rapaz solteirão, filho do marceneiro.  Ela bem mais velha do que ele e era muito ciumenta e ele chegado a um rabo de saia conforme se falava lá em casa. Um belo dia de sol apareceu uma moça bonita e elegante na esquina do armazém do seu Antonio e perguntou-me se eu conhecia o Alexandre. Claro que conheço, respondi prontamente. Então ela pediu-me que fosse dar um recado que ela muito queria falar com ele. Fui rapidinho até a casa do tal de Alexandre, que estava dormindo. Quando falei que uma moça estava querendo falar com ele, a Dona Itália ficou uma fera e saiu de chinelas para encontrar a rival. Foi o maior barraco. A moça, muito educada tentou contornar a situação, mas foi humilhada publicamente, com todos os impropérios que as mulheres ciumentas utilizam contra as suas rivais. Naquele dia aprendi novas palavras e tornei outras mais feias. Começou a juntar muita gente até que o Alexandre apareceu e apartou o que seria uma briga de fato. A moça foi embora e ele levou a mulher para casa.
E por falar em afogamentos, esses eram constantes na represa em São Bernardo e de vez em quando tínhamos notícias de novas tragédias. Um colega do grupo primário, o Mário Corvalan, também caiu na armadilha e morreu com 18 anos na mesma represa. Meu irmão Nelson quase foi vítima da mesma tragédia. Por sorte na segunda vez que subiu à superfície, um bombeiro conseguiu retirá-lo de lá. Outro menino, que estudava no mesmo colégio que eu, também foi vítima e este estava com apenas 16 anos.
Andando pela rua acabei lembrando também de um caso que quase virou uma tragédia. Dona Mariquinha, a mulher do padeiro, ficou furiosa com um menino que bateu em seu filho. Não foi nada de mais, mas o menino chorou pra burro.  Dona Mariquinha foi até onde o garoto estava e deu-lhe uns safanões para que aprendesse a nunca mais bater em seus filhos. A mãe do menino trabalhava numa fábrica até as dez da noite e no outro dia, sabendo da história pelos outros filhos, não teve dúvidas. Levantou-se cedo, colocou um punhal escondido no peito, mas que dava para ver um pedaço do cabo. Tirou o garoto da cama e o levou arrastado até a casa da vizinha. Ele não queria ir, principalmente porque ele havia molestado o garoto sem nenhum motivo e depois ficou seriamente com medo do que poderia acontecer. A molecada foi atrás da dona Custódia como uma procissão. Chegando à casa da dona Mariquinha, esta abriu a janela e tremeu igual uma vara verde. Dona Custódia com o filho puxado pela mão entrou na varanda da casa e bateu forte na porta. Dona Mariquinha saiu de camisola e pediu pelo amor de Deus que não batesse nela e que tivesse dó dos seus filhos. Dona Custódia mostrava o filho e falava: “Quero que tu bata nele agora! Vamos sua covarde, encoste um dedo nele que tu não vai ver mais seus filhos”. A mulher chorou desesperada e se ajoelhou nos pés da dona Custódia, uma gaucha valente que só vendo. Pessoalmente, acho que ela não ia fazer nada, mas quis impressionar e garantir que ninguém iria molestar seus filhos em sua ausência, já que eles ficavam sozinhos quase o dia inteiro.
Eu também protagonizei uma cena que ficou nos anais da memória dos velhos. Um garoto gordo e molengão chamado Rodil bateu em meu irmão mais novo. Não tive dúvidas, fui tirar satisfações com o grandalhão e apliquei-lhe uma gravata e uma rasteira e só ouvi o tombo do menino no chão. A mãe, uma senhora roliça, resolveu entrar na briga e acabou caindo no chão junto com o filho. Diante do inusitado, dei o fora, pois brigar com adultos era encrenca na certa. No dia seguinte ela estava em nossa porta para conversar com minha mãe. Dona Itanina pediu desculpas pelo que aconteceu, mas antes advertiu a senhora balofa que em briga de crianças, adultos não devem se envolver. Mas de qualquer forma levei uma surra bem dada com um velho cinto do papai, grosso, cruel e pesado, que deixou manchas vermelhas pelas pernas e na alma.
Nesta visita a minha rua e ao meu bairro, senti saudades dos velhos e distantes tempos de criança. As paixões de infância, como a Geni que era filha do guarda civil, depois a Mirian, filha de um amigo do papai e, finalmente, a Maria, minha vizinha do lado, fizeram-me lembrar que, naquela época, eu era bem volúvel em matéria de amor. Prédios deram lugar as casas dos antigo vizinhos e companheiros de infância. Nada é para sempre e na época não se pensava nisso. Parecia que o mundo seria sempre o mesmo.  O sol sempre quente e as peladas na rua que duravam eternamente. Virava depois de seis gols e acabava com doze e nas férias jogávamos várias partidas que só paravam quando o sol se punha no horizonte. Fizemos mais gols do que o Pelé e o Romário juntos, mas como não havia ninguém para registrar, caíram no esquecimento.


O MARQUINHOS

Marquinhos era “mariquinha”. Era assim que todos os garotos do bairro se referiam a ele. A molecada era cruel, mas ele nem dava bola para a galera. Com sete ou oito anos, passava batom na boca e usava os sapatos de salto de sua irmã mais velha. Muita gente da turma falava em “comer” o Marquinhos, mas era só conversa, principalmente, porque ele nem sabia direito o que era isso. E continuava com seu jeitinho efeminado, dengoso e sempre na dele.
Pobre Marquinhos morava num cortiço com mais seis irmãos em apenas um quarto. O banheiro era dividido com outras famílias. Sua mãe dona Encarnacion, era uma espanhola magra e doente que trabalhava duro para sustentar a família. O marido de vez em quando aparecia para ver os filhos, mas ajudava pouco ou nada. O dono do cortiço quase sempre aparecia para cobrar os aluguéis atrasados. Parava o Chevrolet Bel Air e descia engravatado com o filho e um empregado. Era um acontecimento na vizinhança.  Era comer ou pagar o aluguel. Dona Encarnacion dizia para os vizinhos: “No hay dinero para comer, no hay dinero para alugueres”. E assim iam tocando a vida.
A irmã mais velha do Marquinhos, a Lola, começou a trabalhar numa fábrica lá pelos lados da Mooca. Coitada, precisava levar marmita e quase sempre era um ovo frito com arroz e feijão. Entrava às duas da tarde e saia às dez da noite. Chegava em casa quase meia noite, quando não chovia. Um dia, desgostosa da vida, resolveu cair na vida e não voltou mais para casa. Demorou muito tempo até que apareceu muito bem vestida e distribuiu presentes para todos os irmãos e nunca mais voltou. A mãe, uma senhora muito respeitosa e religiosa, renegou a filha, uma puta.
A outra irmã, a Marisa, era muito bonita e tinha belas pernas.  Era avoada e por pouco não foi seduzida por um dos rapazes metidos a bacana do bairro. E não sei que fim levou, pois algum tempo depois a família mudou-se do cortiço para outro bairro.  Com os hormônios a flor da pele, tive pesadelos com a Marisa e as suas pernas morenas e roliças sempre a mostra por causa dos vestidos curtos.  Para que tanta perna meu Deus! Meu coração pensava. Mas meus olhos não pensavam em nada. Eu ainda não havia lido o Drummond, mas o poema se encaixava perfeitamente nos meus devaneios.
E Marquinhos continuava sendo um menino diferente. Quando estava lá pelos treze anos, desandou de vez, passou a usar tamanquinho de salto, calças agarradíssimas, pulseirinhas e outros adereços. A turma toda gritava: “Marquinhos boneca” e ele nem dava bola e até rebolava para provocar o pessoal. Dizem que a dona Encarnacion mudou de bairro por causa da vergonha que sentia. Uma filha virou puta e o filho mais novo... Era demais para uma mulher conservadora, sofrida e miserável.
Tempos depois surgiram notícias do Marquinhos através de uma garota do bairro que descobriu ele estava trabalhando num salão de beleza. Começou fazendo unhas e depois cabelos. Era a glória para ele, que adorava conversar com as garotas e trocar ideias sofre penteados e roupas. Depois disso começou a frequentar o bairro novamente, mas por causa de outro menino que morava numa rua próxima. Os dois saiam de tamanquinho e maquiados para a alegria dos fofoqueiros do bairro. Era um comentário geral sobre as duas figuras diferentes. A família do outro menino se sentia envergonhada, mas a dona Zelda não abandonou o filho que continuou morando na casa mesmo contra a vontade do pai que queria que ele fosse internado em algum lugar bem distante. O irmão, o Luizinho bozó, era metido a moleque malandro desde criança. Depois de adolescente começou a fumar maconha e andar com outros “boys” do bairro. Usava calça boca de sino, que era uma roupa emblemática do pessoal que pitava a canabis sativa. Luizinho bozó chegou a ser preso, passando mais de um ano no xilindró. Sugeria que ele queria se mostrar malandro para não acharem que ele poderia ser igual ao irmão.
Mas Marquinhos continuou com o seu jeito que causava estranheza no bairro. Passou a se travestir. Vestia-se de mulher e desfilava pela cidade à noite virando bolsinha. Sua carreira não foi tão longa, pois logo foi contaminado pela AIDS nos primeiros anos em que a doença começou a aparecer no Brasil. Foi um longo sofrimento. Vítima do preconceito e da doença virou um trapo humano. Dona Encarnacion, sua única protetora, morreu de câncer com pouco mais de cinquenta anos. Marquinhos, homossexual assumido e aidético, morreu aos 26 anos de complicações generalizadas em decorrência da doença. O menino teve uma vida curta e não viu a passagem do século, quando prometia soltar a franga na folia e quem sabe na Parada Gay em plena Avenida Paulista.

quarta-feira, 2 de maio de 2012


O GOSTINHO DO INTERIOR

O gostinho das coisas do interior faz parte da vida daqueles que deixam a vida bucólica dos sítios e fazendas e vão para as cidades encontrar novas oportunidades de vida. Muitos trazem nas mudanças algumas latas de doces caseiros, de queijo meia cura, um pouco de café em grão e vai por ai. Além de tudo, carregam também a saudade dos amigos, dos bichos, dos passarinhos cantando de madrugada e outras lembranças que permanecem por toda a nossa viagem por este planeta.
Quando se recebe a visita de alguém da terrinha, é inevitável que o visitante traga umas encomendas. Visitar alguém da cidade e ir de mãos vazias é um sacrilégio imperdoável. Conheci uma pessoa que deixava para comprar uma lembrancinha em algum lugar próximo da estação ou rodoviária. Numa dessas comprou um queijo meia cura que não era da cidade mineira de onde vinha, mas do interior de São Paulo. Pois é, desculpou-se dizendo que foi enganado lá mesmo. “São os tempos! Não se pode confiar em ninguém e o sujeito me garantiu que era da terra”, defendeu-se pouco a vontade ao ser flagrada a etiqueta embaixo do produto.
Lá em casa as coisas funcionavam como um posto avançado do interior. Nossos parentes lá da Noroeste Paulista despachavam religiosamente frangos, porquinhos, frutas, café, arroz e feijão. As encomendas vinham pela ferrovia e um telegrama anunciava a data do despacho e da chegada. Chegando, pagava-se um carreto e a mercadoria estava em casa. O bom mesmo eram as iguarias que vinham em mãos pelos parentes, como queijos e o famoso doce de leite coalhado, uma delícia.
Nossa casa tinha um bom quintal, onde eram criadas as galinhas e um porquinho que era anualmente sacrificado para o deleite dos apreciadores da carne suína. O dia do sacrifício era terrível, pois a criançada acabava gostando do bichinho, apesar do trabalho que dava em alimentá-lo e lavar diariamente o chiqueiro para evitar reclamações dos vizinhos.  Meu pai convidava uns amigos, preparavam o fogo, afiavam um punhal e o coitadinho era sangrado de acordo com os padrões judaicos, mesmo que não soubessem. Do porco se tirava tudo, menos o gemido de dor.  Parte da carne era repartida com os vizinhos mais chegados. Do restante fazia-se linguiça, toucinho defumado, chouriço, torresmo, carne cozida que era conservada na banha coalhada em latas, um antigo sistema trazido pelos europeus.
O café era um capítulo a parte. Recebíamos um saco de sessenta quilos de café in natura que era torrado aos poucos e moído quase que diariamente para preservar o sabor. O café torrado em casa tinha outro paladar, muito diferente do comprado nos mercados. Mesmo os cafés mais sofisticados de hoje, não conseguem igualar aquele sabor do café que vinha lá da fazenda. Era diferente, talvez torrado um pouquinho a mais, mas era um processo bem artesanal que lhe dava um toque especial.  Há que confessar que o trabalho de torrar e moer que recaia sobre as crianças não era nada agradável. Como as meninas se ocupavam de arrumar a casa e ajudar na cozinha, o café acabava ficando por minha conta, que lamentava quando era época de colheita de café. A fazenda era de um tio que plantava café em quase metade do seu grande latifúndio. Quando ia para lá nas férias, adorava passear pelo cafezal e chupar as doces frutinhas vermelhas.  Na época da colheita era um movimento e tanto na fazenda. O café era carregado até os terreiros onde era espalhado para a secagem antes de ir para o beneficiamento.  Para o consumo interno era socado mesmo no pilão para tirar a casca e depois torrado de forma artesanal.
Mas hoje está tudo muito diferente, principalmente no interior. Numa visita à fazenda de um primo, descobri que eles abandonaram há tempos a vida artesanal. Fazer queijo, manteiga e pão são coisas antiquadas, dos velhos tempos do atraso, das carroças. De nada adiantou o meu discurso sobre a sustentabilidade, expressão da moda entre aqueles que são preocupados com a poluição, lixo e esgotamento dos recursos naturais.  Agora é tudo comprado no supermercado e ninguém se preocupa em ir até duas vezes por dia à cidade para fazer compras. Quando perguntei pelo cafezinho torrado e moído em casa, foi uma sonora gargalhada acompanhada da emblemática frase: “Depois dizem que nós somos caipiras”.

sábado, 5 de novembro de 2011

A MEIA NOITE EM PARIS E A MEIA NOITE NA PAULICEIA DESVAIRADO


Ao sair do cinema na Rua Augusta, depois de assistir o belo filme de Woody Allen, fiquei um pouco frustrado por não estar chovendo como na última cena do filme. A rua estava repleta de carros, com muito barulho, muita gente e em nada sugeria o clima de Paris nos anos 30, palco da trama desenvolvida pelo magistral cineasta. Mas resolvi caminhar um pouco para curtir o clima do filme enquanto aguardava uma carona. Cansado de esperar fui descendo a Augusta no sentido centro e aos poucos fui tomado por um clima diferente. Até hoje não sei se pirei ou se o mundo havia voltado no tempo. Estava em frente ao restaurante Gigetto, onde até hoje, muita gente famosa gosta de jantar depois das peças de teatro, shows ou mesmo para encerrar uma noite de trabalho. Lá encontrei há alguns anos atrás o humorista Ary Toledo, Chico Buarque, Marieta Severo e Elba Ramalho todos numa mesma noite.
Logo que entrei vi sentado em uma mesa num canto o poeta e romancista Mario de Andrade, com sua calva avançada. Ele estava rascunhando alguma coisa, talvez um verso. Imagino que não era no guardanapo porque nos anos 30 ainda se usava de guardanapos de pano. Não importa se era numa folha de papel qualquer, mas ele estava escrevendo. Aproximei-me e ele muito solícito pediu que eu sentasse e começamos a conversar sobre sua obra, principalmente o seu famoso poema Paulicéia Desvairada. Fiquei bisbilhotando o que ele havia escrito no papel e ao notar meu interesse deu para que eu lesse. Era um poema numa linguagem típica dos caipiras paulistas: “Quando da brisa, num açoite/ A flor da noite/ Se acurvô/ Foi se encontrá com a Maroca/meu amor...”  E foi então que ele disse que se tratava de uma letra que estava fazendo para uma canção de um amigo, o Ary Kerner. Mário, depois de beber mais um pouco de cerveja, soltou-se e declamou os versos para mim, ante o olhar espantado de alguns freqüentadores circunspectos do restaurante.
Enquanto conversávamos animadamente eis quem chega ao Gigetto: nada mais nada menos do que o futuro historiador paulista, Sérgio Buarque de Hollanda. Ele ainda era um sujeito magro, muito elegante com seu costume justo no corpo e um chapéu de palheta que levava à cabeça. Saudou-nos alegremente e disse ter gostado muito dos versos que o Mário havia lhe enviado na última semana para o Rio de Janeiro. Mário cuidou de apresentar-me ao seu amigo, mas ainda nem sabia meu nome: “Este é o senhor... “ Eu completei rapidamente dizendo meu nome e disse que estava tentando escrever uns versos e buscava na experiência do Mário de Andrade, algumas orientações e críticas. Nisso o Sergio, muito solícito, ofereceu-se, ele mesmo, para ler os meus versos e analisá-los.
- E o que faz na Paulicéia, Sérgio? Que bons ventos o trazem? Perguntou animadamente o Mário.
- Vim resolver alguns negócios de família, mas devo retornar ao Rio, no final da semana. Contudo, antes quero encontrar com os amigos, ver uma ou outra peça de teatro, comprar alguns livros...
- Você continua um inveterado comprador de livros. Eu também não posso falar muito, pois a minha biblioteca está entupida e não tenho mais lugar para guardá-los.
- Não se preocupem, disse eu, um dia vocês deixarão para uma biblioteca pública que irá guardá-los com muito carinho. Disse pensando no futuro que já conhecia como a famosa biblioteca Mario de Andrade, que na verdade não tem cuidado  muito bem do acervo, mas não poderia desanimá-lo. Quanto à biblioteca do Sérgio, sabia que estava bem guardada na Unicamp.
- E a saúde Mário? Ouvi dizer que você não tem andado muito bem. É algo sério?
- Não sei se é sério. Isso só Deus sabe, pois os médicos entendem mais de cifrões do que de saúde. Mas sinto umas dores no peito que chegam e partem como a poesia.
Ouvindo a conversa lembrei que o poeta Mário de Andrada morreria poucos anos depois, em 1944 e estávamos em 1938, ano da fundação do Restaurante Gigetto. Olhei com tristeza para o seu rosto sereno. Pensei em dar-lhe alguns conselhos, mas não sendo médico não sei se ele ouviria com alguma atenção, mas arrisquei: “Olha Mário, não gosto de dar palpites, mas pode ser o coração. Cigarros, muita gordura e vida sedentária podem entupir as coronárias e daí... O Mário cortou rapidamente a conversa dizendo “Viva a boa vida”, nada de dietas, nada de parar de fumar. São os prazeres que fazem a vida valer a pena”.
- E o livro Raízes do Brasil  Sérgio, como está sendo recebido pela crítica?
- Não sei não... Penso que o pessoal não entendeu bem a expressão “homem cordial”, com que defino o brasileiro.
- Em pleno século XXI ainda há discussão sobre isso. Comentei sem querer, mas logo disse que era uma brincadeira e que quis dizer que provavelmente o livro provocaria polêmicas por muitos e muitos anos.
Sérgio ficou interessado ao saber que eu havia lido seu livro e disse que gostaria de marcar um novo encontro para conversarmos um pouco mais sobre o assunto, pois nesta noite ele estava com um pouco de pressa, pois precisaria tomar o último bonde para se hospedar na casa de um velho amigo dos tempos de colégio.
-  E o Vinicius e o Drummond? Tem visto os dois no Rio?
- Ah sim, o Vinicius está mudando de estilo poético. Não é mais o poeta metafísico de antanho. Deu para escrever versos amorosos e sensuais. Mas são bons versos, não posso deixar de admitir. O nosso Vinícius tem uma sensibilidade rara, principalmente com relação ao sexo feminino. Quanto ao Drummond, aquele mineiro ensimesmado, que fala pouco, mas continua espreitando as saias das mulheres que vivem pela praia, coloridas pelo sol. Olhe só, parece que estou versando...  Vou anotar isso, quem sabe um dos meus futuros filhos resolva escrever versos e poderá aproveitar a idéia (risos).
- Mas ouvi dizer que a amizade do  Drummond com João Cabral anda estremecida. Eles que eram tão amigos. O que será que houve entre os dois? Perguntou Mario de Andrade.
- Não sei não, meu caro amigo. Acho estranha essa conversa, pois o Drummond e a Dolores foram padrinhos de casamento do João. Estavam sempre a trocar correspondências. Bem... é certo que o Drummond, quando se trata de escrever cartas é mais econômico que o personagem avarento dos Mercadores de Veneza de Shakespeare.
Nisso entrou no restaurante o Oswald de Andrade com sua palheta branca, elegantemente vestido. Ao vê-lo na entrada, Mário de Andrade levantou-se, pediu desculpas para nós e disse que tinha um compromisso urgente. Foi aí que me lembrei de que havia certa animosidade entre os dois. Sérgio Buarque também se levantou para cumprimentar Oswald e eu resolvi sair para acompanhar Mário de Andrade até a porta. Cumprimentei Sérgio e combinamos um encontro na Confeitaria Colombo na próxima semana no Rio de Janeiro. Ao sairmos senti que tudo havia desaparecido. Mil carros modernos e velozes passando pela rua e ainda avistei bem longe, envolto por névoas, o andar apressado do Mário.
Infelizmente estou cá sem saber se sonhara caminhando ao descer a Rua Augusta, ainda fascinado pelo filme A meia noite em Paris ou se havia entrado no túnel do tempo. Não imagino o que possa ter acontecido, mas devo dizer que foi emocionante  aquele encontro surrealista com dois dos mais importantes intelectuais paulistas. Como o túnel do tempo é uma ficção, tributo mesmo esta crônica ao desvario da idade.




quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O TORCEDOR DO SÃO CRISTÓVÃO



O que você acha do Conny? Antes que eu pudesse preparar a resposta, outro amigo entrou na conversa e afirmou categoricamente:
- Ele é bom e não me perguntem o porquê, mas sei que é ele é bom,
- Mas tem que ter algum motivo para ser bom, ora essa.
- Ele é bom porque é torcedor do São Cristóvão.
- Mas só porque torce para o São Cristóvão?  Esse não é um bom motivo para ser considerado um bom escritor.
- Ele não está na Academia Brasileira de Letras? Então é bom e ainda mais que torce pelo São Cristóvão.
 Aqui em São Paulo ele torce pelo Santos, mas no Rio de Janeiro é São Cristóvão e ponto final. Não sabe muito bem porque, mas torce, sofre e chora.   Bom ... saber ele sabe. Uma vez,  contou,  leu uma crônica do Conny em que ele relata que um entregador de pizza apareceu na porta da casa do escritor com a camisa do São Cristóvão e ele curioso perguntou se ele torcia mesmo para o time. Ele e o entregador de pizza eram provavelmente os únicos torcedores do São Cristóvão no Rio de Janeiro. O cronista ficou emocionado por encontrar alguém, vivinho, em carne e osso, que torcia pelo seu time do coração. Deu uma boa gorjeta e foi  comer a pizza que o seu  pessoal já estava esperando.
E foi por isso que o nosso amigo, paulistano e torcedor do  Peixe lembra que depois de ler a crônica ficou meio mamado pelo time de segunda linha, que servia apenas de sparing para os times grandes do Rio. E é o único time que não troca a camisa. Pode jogar contra o Flamengo, o Vasco etc e a camisa é sempre a mesma. Quem quiser que troque a camisa, pois o São Cristóvão não troca. E não é por teimosia não, mas é porque tem apenas um jogo de uniforme. Ou joga com aquela ou joga pelado, não tem opção.
                Depois dessa conversa meio maluca, fiquei pensando se valia mesmo a pena torcer por time grande. Foi aí que me lembrei do velho Estrela F.C. de Vila Marlene, São Caetano do Sul, onde eu morava quando criança. Quase todos os domingos ia assistir aos jogos do time da vila e torcia mesmo, vibrando em cada jogada.  Depois dos jogos, se vitoriosos, os jogadores voltavam a pé, uniformizados, para a sede, que ficava a dois quarteirões  do campo, com mais um trofeu, orgulho dos jogadores. Na sede, um barracão nos fundos de um armazém, os troféus eram expostos em uma  rústica estante de madeira. Na segunda-feira, voltando da escola, gostava de admirar os uniformes dependurados nos varais do quintal de uma lavadeira. Ficava orgulhoso de ver as camisas do meu time da vila balançando ao vento. Quantas glórias!
Argemiro Piffer nosso vizinho de frente, era um zagueiro do time e gostava de tomar sol sem camisa, exibindo seu corpo sarado com uma águia tatuada no peito. Naqueles tempos era raro ver alguém tatuado e a garotada ficava curiosa querendo saber como aquela tinta não saia quando ele tomava banho. Grande Miro, torcedor do Corinthians, beque central do Estrela F.C. que me levou ao Pacaembu pela primeira vez para assistir um jogo do timão. Foi um dia de aventura para os meus 12 anos. Fomos de carona na boléia de um caminhão.   Morreu moço o Miro depois de um acidente inexplicável, deixando mulher e filhos.
                Mas infelizmente o Estrela acabou ou relaxou como se dizia na época. As camisas ficaram gastas e imprestáveis e não apareceu nenhum patrocinador para comprar um jogo novo de camisas. Os grandes craques do Estrela F.C.  também não tinham dinheiro para comprar nem chuteiras, quanto mais o uniforme. O seu Manuel, o português da padaria, às vezes pagava a lavadeira quando faltava dinheiro, pois sempre tinha alguém desempregado. De qualquer forma o futebol de várzea estava com os seus dias contados por obra da força demolidora da especulação imobiliária. Mas enquanto durou o time, os nossos humildes  ídolos suavam a camisa, ralavam-se no chão de terra batida e tinham como glória apenas o prestígio entre os homens do bairro e das crianças que os reconheciam nas ruas. Para eles aquilo era demais. Por isso eu também acho que ser torcedor do São Cristóvão é motivo de orgulho, pois não ganha campeonato, não aparece na televisão, mas está no coração do povo. Viva o São Cristóvão e todos os seus (poucos) torcedores.
Quanto ao velho Cony recordo-me do romance Travessia  entre outros que ele publicou ainda nos tempos de ditadura. Travessia é um bom livro, corajoso para a época, mas a história da indenização que ele recebeu por ter sido oposição ao governo militar, confesso que não engoli, uma mancha na sua biografia. Como disse o Millor, eles não fizeram oposição, mas um fundo de pensão.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

CATOLÉ E SUAS HISTÓRIAS





Catolé é o apelido de Cleoton Fernando de Sena, nascido em Catolé do Rocha, Paraíba, que conheci através de amigos em São Caetano do Sul. Funcionário do Banco do Brasil transferiu-se ou foi transferido, não sei ao certo, para São Paulo, onde angariou um grande número de amigos pelo seu jeito simples, brincalhão e também pelas boas histórias que contava com bastante picardia. Catolé também tocava um bom violão, que animava as rodas de samba.
Sua história de vida é surpreendente, de origem muito humilde, foi internado em uma instituição para crianças carentes, chamada Pindobal, lá mesmo na Paraíba, cuja história ele resgatou, tempos depois, através de um vídeo que provava que é sim, possível, tirar crianças da rua e dar-lhes amparo e educação de qualidade. Catolé ao contrário do irmão que fez medicina, fez o curso superior em Belas Artes no Rio de Janeiro e conseguiu um bom emprego através de concurso no Banco do Brasil, onde fez uma longa carreira até a aposentadoria.
Mas Pindobal ficou na memória do Catolé como um paraíso perdido no tempo. No vídeo mostrou os dormitórios, as salas de aula, refeitório, pátios e os locais onde as crianças cultivavam seus próprios alimentos. Era uma imagem contundente do abandono de um projeto que deu certo na época e foi descartado pelo poder público.  Durante a apresentação que fez para os amigos, comentava indignado o abandono da instituição que conseguiu transformar pessoas como ele, em cidadãos dignos desse nome. Em alguns momentos percebia-se lágrimas no seu rosto, fruto das emoções que as lembranças provocavam.
Lembro-me de uma reunião na casa de um amigo em que o Catolé contou algumas histórias muito engraçadas. Uma delas era sobre um primo dele que veio de Sergipe para procurar emprego em São Paulo, ficando hospedado na casa de um tio. Passados três meses nada de emprego e as economias que o rapaz trouxe minguaram, restando apenas o dinheiro para a passagem de volta. O tio ao saber da decisão do jovem tratou logo de animá-lo e não aceitou que um parente seu voltasse fracassado para a terrinha. “Meu filho vou lhe ensinar como é que se procura emprego aqui em São Paulo”, sentenciou o tio, morador há muitos anos na cidade. Foi então que o tio orientou o rapaz para que pegasse o jornal e não se preocupasse com a experiência requerida. “Basta dizer que tem experiência e pronto. Lá dentro você aprende com o tempo”.
Assim, o moço viu um anúncio no jornal: “Indústria eletrônica precisa de nissei com prática” ele não teve dúvidas e no dia seguinte, bem cedo, lá estava na fila de candidatos ao emprego, destacando-se pelo seu porte alto entre os nisseis. O selecionador ao ver aquela figura estranha na fila de candidatos, perguntou curioso: “Você é nissei mesmo?” “Sou sim senhor e tenho muita prática”, respondeu convicto.
Mas Catolé, para tristeza dos muitos amigos que deixou na terra da garoa, voltou para o Nordeste onde trabalhou até se aposentar. E foi no Rio Grande do Norte que passou os seus últimos anos de vida e onde construiu um aconchegante chalé para receber os amigos e parentes.  Mas uma doença que não foi convidada alojou-se sorrateiramente em seu corpo e levou o nosso Catolé para outra dimensão. A dimensão da saudade eterna. Eterna enquanto durar a vida dos seus muitos amigos que ele deixou por estas bandas que vão sempre se lembrar dos seus sambas, das suas histórias e do seu jeito simples e verdadeiro. 

terça-feira, 27 de setembro de 2011

A DESPEDIDA


A primavera havia chegado há poucos dias, mas a garoa fina e o frio continuavam. A festa estava mais para um bom vinho, mas quem é que poderia prever esse tempo maluco de uma região subtropical de transição. Mas a cerveja era das boas, o espetinho estava caprichado e o pernil estava exuberante. Mas boa mesmo era a conversa, conversa de uma juventude bela e sorridente, conversas de velhos resgatando o passado e lembrando que também não tem muito futuro. A vida é assim mesmo.  
Numa roda de homens com os cabelos grisalhos e brancos, um deles falou em alto e bom tom: “De repente a gente descobre que está velho! É assim mesmo, um dia você acorda e sente que as pernas não funcionam tão bem como antes, além de outras coisas. Ontem, incomodado às 7h por um barulho que não me deixava dormir, levantei furioso para xingar os operários que estavam martelando do lado do meu quarto, no terreno vizinho. Coloquei a escada para dar uma bronca, a escada escorregou e desabei. Fiquei estendido no chão até que alguém  me socorresse.  Foi aí que percebi que não sou mais o moço que pensava ainda ser;  caiu a ficha”.
Aquela conversa pode não ter sido muito agradável, pois ninguém gosta de ser lembrado que está ficando velho, mas o  amigo estava conformado e parecia não se preocupar muito com o passar do tempo. Porém, é bom ter o conforto de antigos companheiros para compartilhar a passagem do tempo. Pior é envelhecer sozinho, solitário. Lembrei-me das palavras de uma amiga na passagem dos seus oitenta anos: “Nada me faltará, pois tenho amigos”. Que palavras bonitas, que chegam a dar um calorzinho no coração.
 A festa era a despedida da filha de um velho e querido amigo.  A menina vai para a Austrália com o namorado e vai ficar por lá pelo menos um ano. O nosso amigo estava feliz pela filha ter feito a generosidade de convidar alguns dos seus velhos amigos para que não se sentisse isolado no meio da garotada. Ela vai para o outro lado do mundo. Quando estiver dormindo estaremos acordados e vice-versa. É um país imenso, maior do que o Brasil e tem apenas a população equivalente a do Estado de São Paulo. São novos horizontes, novas culturas, novas expectativas, outra língua e outros mais.
Os filhos crescem, vão cuidando das suas vidas, ganhando independência e vão deixando os velhos em seu mundo, em seu passado. Um mundo que mudou, um mundo diferente daquele que existia em outros tempos.  Os valores são outros, a música é outra, os medos são outros. São novos ditadores, novas opressões e novas incertezas. Mas nosso amigo estava feliz, apesar da partida da filha; fez o seu tradicional churro, riu, cantou, brincou. Mas será que na solidão do seu quarto não chorará baixinho para que ninguém ouça? Quem sabe. Lágrimas foram feitas para chorar e não para guardar. 

terça-feira, 13 de setembro de 2011

O VELHO ADONIRAM


Adoniram Barbosa ou o João Rubinato nasceu em 1910, na cidade de Valinhos, interior do de São Paulo e mudou-se para Santo André no ABC paulista em 1924, onde passou alguns anos trabalhando como operário e biscateiro antes de ir para o bairro do Bexiga que o revelou para o país e talvez para o mundo. Estaria com cem anos se vivo ainda estivesse. Ainda bem, pois já imaginaram a aporrinhação em cima do sambista? Entrevistas para a televisão, rádio, jornais, revistas e curiosos. O genial velhinho ficaria de saco-cheio e provavelmente todo esse assédio não lhe renderia nenhum trocado para aliviar o seu orçamento. Por isso ele desabafou certa vez quando lhe perguntaram como se sentia sendo tão homenageado: “Homenagem não paga as contas”.

E por falar em homenagens, são várias que estão pipocando por aí para lembrar o maior sambista paulista, que com a sua irreverência, resolveu desmentir o Vinicius de Moraes que teria dito que São Paulo era o túmulo do samba. Com o samba Trem das Onze, ganhou um festival de samba no Rio de Janeiro, em comemoração ao IV centenário da cidade. O Vinicius teve que levar para o túmulo a fama de agourento da nossa paulicéia desvairada. Pessoas famosas não podem falar coisas que possam comprometê-las no futuro. Quem não se lembra do Gerson e aquela propaganda odiosa? Pois é, o publicitário bolou uma campanha e sobrou para o jogador o ônus de carregá-la nos ombros até o final dos seus dias.

E por essas e outras fui assistir ao show do Carlinhos Vergueiro, acompanhado pela “cara-metade” e o amigo sambista e compositor Zeca da Silva, na cidade de Santo André, onde o Adoniram morou alguns anos. Esperávamos a casa cheia e por isso tratamos de chegar cedo para evitar a disputa indesejável de poltronas com pessoas mal educadas. Qual o quê! Uma platéia quase vazia aplaudiu e vibrou com o velho e bom sambista Carlinhos Vergueiro, dono de uma vitalidade incrível, que cantou e contou histórias sobre o homenageado, com o qual conviveu e se tornou parceiro em alguns sambas. Numa delas, ele relata outra versão da história da letra de Iracema. Segundo ele, o Adoniran estava caído por uma moça que não lhe dava a menor chance. Desiludido, avisou a tal que iria matá-la (simbolicamente, é claro) compondo o samba em que sua diva morre atropelada.

Adoniram foi mais do que um sambista, foi também um cronista da Paulicéia. Vivendo e circulando entre os bairros do Bexiga, Mooca e Brás, ele captou o jeito típico do paulistano boêmio, gozador e também sofredor. Com letras simples e usando um português muito distante do idioma de Camões, repleto de italianismos e erros de concordância, ele conquistou o coração dos paulistas e também dos imigrantes. São histórias do homem comum, do trabalhador, do desempregado, do sem teto, que busca sobreviver na grande capital. Saudosa Maloca, que retrata o eterno problema de moradia com as invasões de espaços públicos e particulares pelos sem-teto, revela uma crítica social, mas também um conformismo diante do sistema econômico. Os velhos palacetes assobradados abandonados ainda existem e de vez em quando lemos nos jornais que foram invadidos ou desocupados à força. O edipiano Trem das Onze que passava no Jaçanã apenas para rimar com amanhã lembra o problema do transporte público na maior cidade do país e se tornou a música símbolo dos paulistanos. A Iracema que morre atropelada por atravessar na contramão é mais uma cena do cotidiano paulistano, com os milhares de atropelamentos, interrompendo vidas de crianças, jovens e adultos de uma forma violenta, deixando rastros de tristezas e saudades.

Mas há outra história sobre a carreira de Adoniran Barbosa, contada pelo Walter Silva, o “Pica-Pau”. Adoniran era bem diferente daquela figura brincalhona, irônica e engraçada que conhecemos. Teria sido um sujeito mais sério, que cantava músicas de Noel, como Filosofia, que ele defendeu num programa de calouros. O Adoniran que fez sucesso na paulicéia e depois no Brasil foi criado pelo produtor Oswaldo Molles para um programa de rádio nos anos cinquenta. O personagem foi o “Charutinho”, que ele incorporou até o final dos seus dias. Walter Silva ainda afirmou que o português errado dos sambas foi, muitas vezes, obra dos “Demônios da Garoa”, que imprimiam um tom humorístico às suas músicas.

Adoniran, com português errado propositalmente ou não, deixou sua marca no samba e na cultura paulistana. Até hoje muitos cariocas acreditam que os paulistas falam como nas suas canções; mas mesmo sendo um descendente de italianos meio acaipirado, colocou a paulicéia no panteão do samba. E sobre falar errado, é dele a frase: “A pessoa, pra falar errado, precisa saber falar errado. Se não souber é melhor não falar errado”.













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A PRIMEIRA TELEVISÃO





A primeira televisão a gente nunca esquece, não é mesmo? É evidente que eu me refiro àquelas pessoas com mais de cinqüenta anos que viram o aparelhinho entrar pela primeira vez em casa. Meus pais resistiram muito em comprar uma TV por acharem que o rádio já estava ótimo. Além disso, os aparelhos da época ficavam mais nas oficinas de conserto do que na sala de visitas. Isso era visível quando o carro da Eletrônica Kodama parava em nossa rua para levar ou trazer aparelhos com problemas. O japonês era o melhor técnico da praça, pois consertava tão bem os aparelhos que ficavam funcionando até três meses, o que era um recorde. Naqueles tempos ter uma televisão significava ter mais um filho para sustentar.
Uma senhora que morava em frente à nossa casa comprou a primeira TV da rua e como tínhamos uma intimidade maior com ela, eu e meu irmão mais novo íamos lá assistir o Zorro, A turma do Sete e até o Alô Doçura, com o John Herbert e a Eva Wilma. Programão! E foi por causa da televisão da vizinha que meus pais resolveram comprar uma também, pois detestavam que a gente fosse à casa dos vizinhos para incomodá-los. A nossa primeira foi uma Invictus, uma perfeita bomba se considerarmos os padrões de hoje. Em todo momento ela desregulava e precisávamos ficar girando os botõezinhos da vertical e da horizontal. Normalmente na melhor parte do filme ou programa, a faixa horizontal disparava.
Havia também a disputa por programas. Meu pai adorava o telecatch aos sábados e a garotada preferia, obviamente, o Bonanza, um faroeste sobre uma família de fazendeiros que fez muito sucesso nos anos sessenta. Era o máximo, desde que meu pai não ficasse com o saco-cheio da lengalenga do Bonanza e resolvesse dar uma espiadela na luta livre. Era um saco. Ninguém saía da sala  por uma questão de respeito ao velho, mas que dava vontade, isso dava.
Lá em casa se ouvia falar sobre a televisão há muito tempo, mesmo antes das primeiras aparecerem no bairro. Meu avô falava nela desde os anos quarenta, quando leu umas notícias numa revista estrangeira que ele assinava. Meu pai contava que quando ele falava sobre a televisão o pessoal do interior pensava que ele tinha ficado louco. “Onde já se viu ver as pessoas de longe? Isso é coisa de velho caduco”. Meu amigo Sinézio Dozzi Tezza contava que em Descalvado o prefeito colocou um aparelho na praça para o povo assistir e ele com seus amigos subiam numa árvore e ficavam assistindo com os olhos fixos no aparelho. Para espantar “coisa ruim” eles faziam figa nos dedos, pois os mais velhos diziam que era coisa do demônio.
Mas a televisão, apesar das suas múltiplas vantagens em termos de lazer e informação, acabou destruindo uma extensa rede social. Os gibis foram perdendo o seu glamour, já que podíamos ver os nossos heróis diretamente na telinha, “vendo a vida mais vivida, que vem lá da televisão”, como diria o poeta. Nossos vizinhos sempre apareciam durante a semana ou no final para um cafezinho e falar de política ou sobre os últimos acontecimentos. Com a telinha se espalhando pelo bairro, os contatos diminuíram tanto que as pessoas mal se falavam. A televisão isolou as famílias no aconchego dos lares. O cinema do bairro, aos poucos foi perdendo o público e isso aconteceu também depois com os cinemas centrais. A conversa quando se encontravam não era mais sobre a família, as novidades, as receitas, as viagens. Os assuntos mais importantes vinham lá da televisão. A imagem passou a ser mais importante do que a realidade. 

sábado, 5 de março de 2011

UMA MENINA CHAMADA MARIA QUE ABALOU O QUARTEL


Foi no longínquo 1967 e Maria estava com pouco mais de dezesseis anos; não era bonita, nem feia, era pobre e morava, provavelmente, em algum dos muitos  cortiços de São Caetano do Sul, no ABC paulista. Sem muito que fazer,  circulava pelas imediações do Tiro de Guerra paquerando os jovens bonitos e sarados de classe média. Ninguém lhe  dava atenção, mas ela continuava insistindo em passearr por ali e, às vezes, ficava no portão observando os exercícios militares. Eram duas horas de atividades diárias, com um pequeno intervalo para um cafezinho e um cigarro, para quem fumava. Terminadas as instruções, todos saiam às pressas para o trabalho ou para estudar e nunca ninguém prestava atenção na pobre Maria.
Mas Maria apareceu por lá numa quente e enluarada noite de sábado. Os rapazes estavam de plantão. Seriam doze longas horas de fastio. Cada Companhia tinha a sua escala e dez ou doze rapazes eram sorteados para a triste tarefa. Como eram da mesma Companhia, todos se conheciam, o que criava condições para alguma cumplicidade com o cabo da guarda, responsável perante o sargento pela disciplina do grupo.  Com 18 anos e com alguma rara exceção, eram todos imaturos, e se deliciavam em fazer brincadeiras durante o período como urinar nas botas dos companheiros que dormiam durante o descanso. Soube que numa outra ocasião, desceram até o centro da cidade, todos carregando os velhos e inúteis fuzis de instrução. Entraram em bares e causaram bastante alvoroço, principalmente porque o país estava  em plena ditadura militar.
Neste  fatídico sábado estavam de plantão alguns garotos, muitos  de tradicionais famílias do local e já passava das 23 horas quando alguém convidou Maria para entrar no quartel. O sargento residente não estava, o que facilitou as coisas. A pobre menina talvez tivesse pensado que fosse passar alguns momentos com aquele moço bonito que a convidara, mas mal sabia o que a esperava.
Num aposento do andar superior, um após outro penetrava a pobre menina que não podia gritar ou reclamar, enquanto os demais ficavam de plantão para qualquer emergência. Um recruta dava o sinal para o próximo.  Terminada a farra, Maria, que sonhou uma história de amor, estava destruída, sem forças nem para andar. Colocaram-na em um carro e a abandonaram numa rua alguns quarteirões distante do quartel. Estaria tudo resolvido se uma viatura da policia não houvesse passado por lá e encontrasse a menina desmaiada na calçada. Levada para o pronto-socorro, o médico diagnosticou o caso como estupro. Depois de medicada, os policiais a levaram até o quartel onde identificou todos os rapazes, incluindo aqueles que estavam dormindo, pois não tinha condições de se lembrar dos rostos, todos muito parecidos com os cabelos com corte à americana.
            No domingo, durante o intervalo, o comentário sobre o caso se espalhava por toda a guarnição. Os sargentos estavam tensos, os colegas envolvidos mais ainda. As conseqüências pareciam trágicas para todos eles. Dois deles eram noivos, outros tinham compromissos sérios com boas moças pertencentes à famílias tradicionais da cidade.  Alguns trabalhavam em bancos ou empresas da região. Recordo-me de que havia encontrado alguns deles em um baile próximo ao quartel. Estavam planejando ir para o quartel depois do baile para  encontrar com a turma e nem imaginavam, o que poderia acontecer. Também esses participaram do caso, com o agravante de que não estavam de serviço na Guarnição militar.
            Todos eles afirmaram que a garota era uma vadia e que entrou no quartel porque quis e não foi forçada a nada.  Mas a notícia estava nas primeiras páginas dos jornais da segunda-feira e nada seria capaz de amenizar o impacto causado. O fato da garota não ter dezoito anos complicou ainda mais a situação. Todos seriam julgados por um tribunal militar por estarem engajados ou seriam expulsos e julgados pela polícia civil? A expulsão do quartel era óbvia, mas o crime continuava sendo militar.
            No domingo seguinte o comandante fez um discurso pesado, exaltando a moralidade e a disciplina militar. Os colegas envolvidos foram destacados do grupo e já sem fardas foram formalmente expulsos. Todos esperavam que um camburão da polícia estaria do lado de fora para levá-los presos, mas nada disso aconteceu. Todos voltaram para as suas casas e responderam o processo em liberdade. O processo se arrastou por mais de um ano e no final  os mais implicados foram fazer o serviço militar em outros Estados os demais foram desligados por mau comportamento.
Algum tempo depois, já concluído o serviço militar encontrei com um deles. Tínhamos estudado no mesmo colégio e era uma pessoa bastante educada e simpática. Fomos a uma festa juntos e algumas vezes falamos sobre o episódio. Percebi que isso provocava um grande mal estar. A família da namorada o acusou de tarado e foi proibido de vê-la.
Alguns anos depois o encontrei novamente, desta vez estava numa situação deplorável. Embriagado, estava parado na porta de um bar perturbando as pessoas que passavam com palavras de baixo calão. Parei diante dele e o cumprimentei. Ao reconhecer-me ficou um pouco envergonhado por seu estado lastimável. Aos poucos consegui convencê-lo a ir até um local mais tranqüilo para tomarmos uma bebida. Durante o caminho falou sobre a merda que se transformou sua vida depois do episódio da garota. “Eu não tive culpa, todo mundo estava trepando com ela. O que eu poderia fazer?”, repetia o tempo todo.
E a pobre Maria, onde andará? No que transformou sua vida, seus sonhos e esperanças? E o restante da turma? Quase todos eles se casaram, tiveram filhos e são cidadãos respeitáveis, mas será que ainda se lembram da menina? Provavelmente não. Um deles encontrei num vôo para Manaus, aonde ele ia a trabalho como eu. Durante a viagem, falamos dos velhos tempos de serviço militar, mas sobre a pobre Maria, ele não pronunciou uma única palavra. O quente e enluarado sábado caiu no vazio do esquecimento.

terça-feira, 1 de março de 2011

A BENGALA


                Francisco tinha uma bela bengala japonesa que herdou do seu avô. Era de cerejeira com cabo de prata. Com quase setenta anos de idade, ele circulava com ela orgulhoso pelos corredores da empresa. Não que precisasse da bengala para se locomover, mas por um pouco de esnobismo. Mas isso não significava que era um esnobe, apesar do sobrenome pomposo que revelava uma origem nada modesta. Ele apenas tinha saudades dos esnobismo dos velhos tempos do Rio de Janeiro quando seu avô paterno circulava por Copacabana usando elegantemente seu chapéu Panamá  e a bengala. Algumas vezes, contava ele, o avô o levava para saborear algumas guloseimas na Confeitaria Colombo. Era um acontecimento inesquecível, que gostava de relembrar sempre que me encontrava. Contava, também, que às vezes, o avô o deixava brincar com a bengala desde que não se afastasse muito do seu olhar, pois era muito ciumento com ela. Mas disse-lhe, claramente, que seria sua depois que partisse.
E assim o seu Chico empurrava com lentidão os seus dias; aguardava ansioso a sua aposentadoria, quando então poderia retornar ao Rio e curtir o que havia restado da velha cidade maravilhosa. Quando saia para visitar clientes, não deixava de levar a sua velha bengala que teria quase duzentos anos, justificando que era uma boa defesa em caso do ataque de algum malandro que resolvesse se aproveitar da situação por ele ser idoso.
Alguns funcionários mais jovens já reclamavam do velho por ser difícil trabalhar com ele, que não produzia o suficiente, que estava empregado por ser protegido por um diretor. Essa desconfiança era até plausível, pois os dois pareciam ter algum laço de parentesco, principalmente pelo jeito de falar e de andar. Protegido ou não ele não perdia a fleuma e circulava elegante com a velha bengala trazida do país do sol nascente e, vez por outra, pitava um velho cachimbo, que dizia ser um inglês autêntico.
Num dia desses esqueceu a velha bengala em um dos veículos utilizados pelos vendedores da empresa. Ficou desesperado, pois não conseguia se lembrar onde deixara a sua relíquia. Passou o dia procurando e perguntando em todos os departamentos se alguém a havia visto. Nem sinal. Ainda o encontrei no corredor lamentando a perda com os olhos marejados.  O mistério da bengala desaparecida durou alguns dias, tornando-se um caso que subiu ao topo da hierarquia da empresa. Finalmente, o mistério foi desvendado. Um vendedor, por acaso, japonês, como a bengala, encontrou-a  no carro que ia usar e, por absoluta falta de sensibilidade, a jogou no recipiente de lixo juntamente com alguns jornais velhos que estavam no banco traseiro.
A história circulou pelos escritórios e todos se sensibilizaram com o velho Chico que perdera sua velha bengala que o ligava aos seus ancestrais. Lamentou por vários dias, sempre contando a alguém a história do sumiço da bengala e sobre a maldade do colega. Classificara a atitude como insensível e desrespeitosa para com os pertences alheios.
Mas não tardou e  a sua aposentadoria finalmente chegou;  entretanto, não voltaria para o Rio de Janeiro para passear na velha Copacabana no final da tarde e aproveitar os últimos raios de sol, como planejara. A história da bengala tirou a alegria do velho, que se fechou numa tristeza de fazer pena. Num dia, que não terminou para ele, ficou debruçado sobre a mesa de trabalho e nunca mais acordou.  Na manhã seguinte o faxineiro foi avisá-lo  que encontrara a velha bengala. Estava no depósito que ficava ao lado da garagem, junto com vassouras e material de limpeza. Alguém a achou e  se esqueceu de perguntar de quem era.  Mas para o seu Chico era tarde demais.



               

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

“O ROUBO DO CELULAR”


 Contou-me um velho camarada que acordou disposto no último sábado e resolveu fazer uma visita surpresa à uma velha amizade em Piedade, cidade ao sul da capital paulista. Convocou o filho como motorista, pois é uma viagem e tanto para os seus quase 70 anos. A cidade, para quem não conhece, é bastante pacata, um povo hospitaleiro e gentil. É a própria cidadezinha qualquer que o poeta Drummond imortalizou nos seus versos. Ninguém por lá tem muita pressa, sinal de que a febre do “time is Money” ainda não chegou com tudo por aqueles recantos. As coisas em Piedade tem um ritmo próprio nem muito apressado, nem muito devagar. Trombadinhas e assaltantes são coisas estranhas e quando acontece, rapidamente, o delegado descobre que não é de Piedade, mas de alguma outra cidade vizinha ou gente da capital.
E foi pensando no bucolismo da velha Piedade, que meu amigo acompanhado do filho aportou no lugarejo, passando antes num restaurante para não chegar de barriga vazia na casa do amigo, que não estava esperando a visita. É evidente que se chegasse com fome, a amável dona da casa fritaria uns ovos, esquentaria o feijão com arroz e estava tudo bem como reza a tradicional hospitalidade do nosso interior; mas meu amigo é orgulhoso e não gosta de dar trabalho.
No restaurante saboreou um frango grelhado com salada e deu uma bicada na cerveja. Conversa vai conversa vem, deixou seus pertences na mesa aos cuidados do filho e foi se aliviar no banheiro (Não sei por que a gente tem mania de chamar de banheiro, um local que nunca tem chuveiro). Terminado o almoço, acertadas as contas, pegaram o carro e no caminho se deu conta de que o celular não estava com ele. O filho não reparou o celular na mesa. “Fui roubado” exclamou  decepcionado. “Até aqui em Piedade já tem ladrão de celular! Está tudo perdido”, foi reclamado até o destino.
Na casa do amigo contou a história e este tratou logo de acalmá-lo lembrando que a dona do restaurante era uma velha conhecida e se o celular foi roubado lá, ela haveria de encontrar o larápio e o objeto surrupiado. “Aqui no interior a gente sabe de tudo”, disse ele com a tranqüilidade que lhe é peculiar.  Depois de colocarem a conversa em dia, relembrando as  antigas aventuras e desventuras, as notícias dos amigos, tocaram viola e cantaram em dueto velhas modas caipiras. Terminada a visita, foram os três à cidade e passaram no restaurante para ver se a dona tinha notícias do telefone móvel, como se diz em Portugal.
Lá chegando, o amigo de Piedade explicou o acontecido para a dona do restaurante, que muito zangada, disparou:
- Ah quer dizer que foi o f.d.p. que foi cagar e derrubou o celular no vaso é seu amigo? Precisei chamar um encanador para consertar o estrago. Quero saber quem vai pagar o meu prejuízo?
            O piedadense virou-se para procurar o seu amigo da capital e não viu nem rastro. Como a amiga falou muito alto ficou a impressão de que era uma discussão com ele.  Precisou se desculpar com ela e saiu sorrateiramente em meio ao movimento da casa antes que encontrasse algum conhecido. O meu amigo e seu filho, quando ouviram a conversa e já sabendo que o celular já era, deram meia volta e saíram de fininho antes que a “obra” se tornasse pública e, além disso, poderia correr o risco de pagarem a conta do encanador.
No retorno à São Paulo foi pensando no celular e na tecnologia que permitia que  a sua mulher, os clientes e os chatos acompanhassem os seus passos em tempo integral, onde quer que fosse. “É, o celular está resolvendo problemas que eu não tinha antes...”, matutou.  Como o filho havia esquecido o dele em casa, estava feliz da vida, pois não recebeu nenhuma ligação desde que o maldito celular tinha ido para o esgoto. E assim aproveitou a viagem para apreciar o verde entre Piedade e Ibiúna que se espalhava até onde a vista alcançava. “Verde que te quero verde...”. E assim, recostou-se preguiçoso nos versos do poeta de Andaluzia e só acordou com o barulho infernal do trânsito de São Paulo.
O seu velho companheiro de Piedade logo  se deu conta de que o amigo fez uma “bela cagada”. Além de perder o celular, que não devia ser dos mais baratos, ainda o deixou em maus lençóis na cidade. Voltou para casa pensando no partido-alto logo mais a noite do bar do Mineiro em que o assunto com certeza estaria em pauta. Em cidade pequena as notícias andam mais rápido do que na internet. Vai ser um mico daqueles. “É... quem mandou ter amigo moderno da capital?”, resmungou desacorçoado, enquanto acendia um cigarro de palha.



sábado, 22 de janeiro de 2011

O FRANGO-PARATI


“Quem for a Ilha do Cardoso, paraíso ecológico do litoral sul de São Paulo e não  saborear o parati frito da bodega do seu Malaquias, na enseada da Baleia, podes crer, não conheceu a ilha. O sabor do peixe é inconfundível e o jeitinho do proprietário em prepará-lo o torna uma das melhores iguarias da culinária caiçara”. Meu amigo Dedo, antigo freqüentador da ilha sempre cantou em prosa e verso as virtudes do parati frito do seu Malaca e na última vez que fui para lá resolvi tirar a prova. Só que é longe, muito longe de onde estávamos hospedados, se é que se pode dizer hospedados na ilha. Na Ilha do Cardoso a gente não se hospeda, a gente se ajeita num canto, se acomoda. Para ficar na ilha a pessoa não pode ser luxenta, enjoada, fresca... Tem estar pronto para o que der e vier.
Como já disse  a bodega do seu Malaquias fica longe e bota longe nisso. São quase doze quilômetros caminhando pelas praias. Assim foram três horas de andanças, contemplando o mar, a natureza quase virgem, mas chegamos à Enseada da Baleia com a fome e a sede de anteontem. Eu já estava ouvindo o barulhinho da fervura do azeite fritando e a minha imaginação começou a colocar até o cheiro de peixe frito no ar. Era um cheiro bom, gostoso, caseiro. Foi o que aconteceu comigo na chegada à Enseada da Baleia.
Mas lá tivemos uma triste surpresa. O velho Malaquias havia falecido e  o seu neto estava tocando o negócio. O meu velho companheiro sentiu que a bodega não era a mesma sem a maestria e a presença do seu Malaquias. Lá se comia e se bebia fiado com base na amizade e confiança. Ele gostava de ver a freguesia alegre e festejando. Nada de cara feia. O bar era muito simples, mas gostoso.  O destaque da bodega é uma foto dele com o Lula durante a campanha eleitoral de 2002, tomando uma caninha no balcão. “Quero ver o que este comunista vai aprontar lá em Brasília”, disparou  o Malaca depois que soube da vitória do Lula nas urnas.
Fomos chegando e perguntando se tinha alguma coisa para comer. Peixe fresco? Não. Camarão? Qual o quê. O moço estava mais preocupado em fazer chamego para a namorada do que em atender a freguesia. Só tinha mesmo as geladinhas de sempre.
A minha fome era tanta que sentia um vazio maior do que o corpo. Como não tenho gordura de reserva, comecei até sentir um mal estar. Foi então que uma moça de Sorocaba que acompanhava a gente se ofereceu para buscar alguma coisa, quem sabe parati frito numa casa vizinha. Foi num pé e voltou em outro com uma travessa fumegante e cheirosa. Não tive dúvidas. Ataquei o parati frito. Era um sabor delicioso, soberbo, senti o tempero inebriando a alma. Não tinha chef francês que faria coisa melhor. Era uma iguaria para ser servida em jantar de posse de presidente. Meu amigo já ia abrindo a latinha de uma “loura” geladinha quando alertei:
- Parceiro, experimente esse parati frito antes de abrir a geladinha. Você vai sentir o sabor da ceia dos deuses.
Foi aí que a moça que foi buscar a comida, avisou: “Pera aí Zeca, não é parati frito não, é frango mesmo”. Aquilo doeu fundo. Eu que sempre abominei carne de frango ou de qualquer outro  bicho que voa. Como é que não percebi o gosto. Como é que vai  ficar minha reputação de inimigo das penosas diante dos amigos que precisam mudar o cardápio na  última hora quando apareço para fazer uma boquinha? Uma velha amiga chegou a fazer uma tremenda encrenca numa festa  porque resolveu mudar o cardápio na última hora porque tinha frango. Como é que eu vou ficar diante dos amigos? Vou pagar o maior mico da minha vida.
Mas o meu companheiro de viagem, sacando a minha profunda decepção e desconforto, saiu em meu socorro:
- Olha Zeca, pode não ser parati, mas que eu vi uns franguinhos diferentes no quintal eu vi. Deve ser um clone de peixe com frango, pois os bichinhos não tinham penas, mas escamas. Acho que deve ser um tal de frango-parati que anda na boca do povo  pela ilha.
Não levei muito a sério a explicação do meu amigo porque ele já tinha devorado umas cinco latinhas e de estômago vazio, mas talvez possa mesmo salvar a minha pele. De qualquer forma para quem quiser me convidar para um rega bofe, vou adiantando: frango eu até como, mas só se for frango-parati, que só tem na Ilha do Cardoso.